Metodologia, amostragem e estratégia: pare de usar essas palavras da forma errada
Técnicas de Redação

Metodologia, amostragem e estratégia: pare de usar essas palavras da forma errada

Se sua empresa publica conteúdo em seus próprios canais ou os distribui via newswire, é importante tomar certos cuidados com a precisão dos termos que escolhe. Afinal, seus leitores tendem a ser pessoas com conhecimentos específicos. Eles vão perceber o uso impreciso de certas palavras.

Não é exatamente o uso incorreto dos termos. É o uso impreciso mesmo. Ou seja, a palavra é quase aquela, mas não exatamente. Um pequeno ajuste e pronto: você acerta na mosca.

Recentemente, alertei clientes para o uso impreciso dos três termos que listo abaixo.

#1 Metodologia

As pessoas adoram dizer no mercado algo do gênero: “temos uma metodologia para melhorar o seu desempenho em vendas”. Na verdade, o que suas empresas têm é um método, e não uma metodologia.

A palavra método vem do grego. Ela é composta de “meta”, que todos sabemos o que significa, e de “hodos”, que significa “via”, “caminho”. Sendo assim, método é o caminho que alguém trilha para alcançar uma meta — ou um objetivo.

Uma empresa pode perfeitamente criar um método que busque melhorar o desempenho de vendas ou de qualquer outra coisa.

Mas metodologia tem outro significado. É a análise dos métodos. Alguns chamam de ciência, outros de área de estudos. Seja como for, metodologia é algo muito mais teórico do que prático. É o que, por exemplo, um professor faz ao analisar vários métodos e compará-los.

Note que diversas palavras que têm o sufixo “gia” se referem ao estudo de alguma coisa: biologia, morfologia e assim por diante.

Portanto, se a sua empresa criou um jeito prático de ajudar os outros, nos próximos textos, escreva que ela tem um método, e não uma metodologia.

#2 Amostragem

Houve um tempo em que pesquisa era uma atividade exclusiva de empresas especializadas nessa atividade. Isso foi na era offline. Era caríssimo encomendar um estudo sobre o seu mercado ou mesmo sobre os seus clientes. Hoje, felizmente, se você tiver um mailing em mãos, pode tranquilamente fazer uma pesquisa.

Com frequência, ouço as pessoas dizerem o seguinte: “fiz uma pesquisa e, na minha amostragem, havia 200 empresas”.

Não era na amostragem que havia 200 pessoas. Era na amostra.

Vamos voltar aos conceitos básicos de Pesquisa de Marketing — aqueles que você aprende na primeira aula dessa disciplina:

  • Universo é o grupo que vai ser pesquisado. Por isso, também é chamado de população. Numa pesquisa de intenção de voto para prefeito, por exemplo, o universo são todos os eleitores da cidade. Já numa pesquisa de mercado para uma empresa de software na área contábil, o universo são todos os contadores do Brasil.
  • Amostra é um pedaço do universo, uma pequena fatia que representa o todo. Por exemplo, numa pesquisa de intenção de voto para presidente, o Ibope não entrevista todos os brasileiros. Entrevista apenas 2 mil, que são a amostra. Quando você prepara uma sopa e quer saber se acertou no tempero, você tira apenas uma colherzinha da panela fervente e experimenta. Sim, tecnicamente isso também é uma amostra. É uma pequena porção que representa o todo.
  • Amostragem é o procedimento que você adota para garantir que a amostra seja representativa. Ou seja, é a forma pela qual você vai selecionar a sua amostra e garantir que ela seja uma miniatura do universo. O jeito mais simples e preciso de garantir a amostra representativa é a aleatoriedade. É o caso da sopa. É também o caso de empresas que têm um mailing. Basta sortear as pessoas que serão ouvidas, e pronto: a amostragem foi feita. Mas num caso de pesquisa de intenção de voto para presidente do Brasil, por exemplo, o Ibope não pode coletar respostas apenas num bairro de classe A — tampouco num local onde passam mais pessoas da classe D. Isso poderia distorcer a amostra, favorecendo um candidato ou o outro, concorda? Então, o processo de amostragem é feito com técnicas que buscam garantir a representatividade da amostra.

Conclusão: daqui em diante, só use o termo “amostragem” para explicar como você chegou à sua amostra.

#3 Estratégia

Pode parecer loucura, mas “estratégia”virou buzzword. Quando as pessoas querem enfeitar o título de um post — ou impactar uma proposta de serviço —, elas enfiam um “estratégico” e a coisa ganha um novo colorido.

Acontece que na maior parte dos casos, isso não faz o menor sentido.

Para entender o que é estratégia, é leitura obrigatória o white paper escrito por Michael Porter em 1996. Você o encontra para download em diversos lugares na internet, como neste site da USP.

Porter começa o extenso artigo com um tapa na cara: “eficácia operacional não é estratégia”.

Seu texto tem pautado todos os livros que vieram sobre marketing depois dele. Acontece que nenhum dos redatores dos posts destacados na imagem acima — nem dos outros milhares que seguem a mesma linha — parece conhecer a definição de Porter. Ela é muito simples: estratégia é uma decisão maior que a empresa toma, escolhendo caminhos importantes, que direcionam o negócio como um todo — ou, ok, uma área dele.

Isto significa que você pode até ter uma diretriz para a comunicação ou o marketing da empresa. Mas você não tem estratégia para marketing de influência, redes sociais ou gestão do tempo. Muito menos oito estratégias para o que quer que seja. Simplesmente porque tudo isso é operação.

O que você pode ter, para todos esses casos, são táticas, ações, iniciativas, boas práticas. Mas nunca estratégia.

Quando você usa a palavra “estratégia” em vão, perde um pouco de credibilidade com quem teve uma boa formação em marketing — seja na faculdade, num MBA ou mesmo por leitura.

Takeaway

Você precisa tomar cuidado com a tentação de escrever “metodologia”, “amostragem” e “estratégia” apenas porque são palavras que soam bem. Elas não têm o significado que muitas pessoas gostariam que tivessem. Melhor do que escrever com pompa, é escrever corretamente. E não passar vergonha.

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